Mentor Márcio Miranda

Concessão voluntária: nunca ceda de graça na venda

Resposta rápida: concessão voluntária é quando o vendedor dá desconto antes de o comprador pedir, só para evitar o risco de ouvir um não. É a principal razão de a margem sumir no fim do ciclo. A regra que resolve isso é simples: nunca conceda sem receber algo em troca, e cada concessão seguinte deve ser menor que a anterior.

Numa negociação que acompanhei há alguns meses, o comprador disse exatamente isso: “O valor está um pouco acima do que esperávamos.” Nada mais. Sem citar um número, sem ameaçar sair da mesa. Uma pressão vaga, quase educada. O vendedor, que até ali tinha conduzido bem a conversa, respondeu na hora: “Posso fazer uma condição especial, 10% de desconto.”

O comprador ficou dois segundos em silêncio e disse: “Ótimo. E dá para incluir o suporte estendido no mesmo valor?” O vendedor incluiu. Negócio fechado, com 10% a menos e um serviço extra que não estava na proposta. O comprador não tinha pedido desconto, ele disse que estava “um pouco acima”. E o vendedor preencheu a ambiguidade com o próprio dinheiro.

Por que o vendedor cede antes de o cliente pedir?

Cede porque tem medo de não fechar, e não porque falta técnica. Existe uma diferença importante entre ter medo de perder o negócio e ter medo de não fechar. Quando o vendedor teme perder, ele analisa. Quando teme não fechar, ele reage. E a reação mais comum é o desconto reflexo, ceder antes que peçam para não correr o risco de ouvir um não.

O problema é que esse comportamento manda um recado claro ao comprador: o preço original tinha gordura. E se tinha gordura sem ninguém pedir nada, deve ter mais quando o comprador apertar de verdade. Sabe o que acontece em seguida? Ele aperta. Sempre. Não por maldade, por lógica. O vendedor acabou de ensinar que pressão vaga gera desconto imediato.

O que é concessão voluntária na negociação?

Concessão voluntária é toda concessão que você faz sem que o outro lado tenha pedido, geralmente para antecipar uma objeção que nem foi levantada. No caso que contei, o comprador só comentou que o valor estava um pouco acima, e o vendedor já ofereceu 10%. Isso é conceder no vazio.

Ela é perigosa porque joga fora margem sem comprar nada em troca e porque reposiciona a negociação num ponto mais baixo logo de cara. A partir dali, qualquer pedido do comprador parte de um preço que você mesmo derrubou de graça. Concessão não é gentileza, concessão é moeda. E moeda não se joga fora.

Como funciona a regra da concessão por concessão?

A regra é direta: você nunca dá uma concessão sem receber uma em troca, nunca. A fórmula cabe numa frase: “Se eu puder fazer X, o que você poderia fazer por mim em troca?” Repare na estrutura. Você não recusa a concessão, você a condiciona, vinculando qualquer movimento seu a um movimento do outro lado.

A contrapartida não precisa ser financeira. Pode ser um prazo de contrato mais longo, pagamento em menos parcelas, autorização para usar o nome da empresa como referência, indicação de outros clientes, flexibilidade no cronograma, redução de escopo. O que importa não é o que você pede, é o ato de pedir, que mostra ao comprador que a sua concessão tem peso real e que ele também precisa se mover.

Que recursos reforçam a técnica?

Dois comportamentos mudam a percepção do comprador sobre o seu limite. O primeiro é a sequência decrescente: se você vai fazer mais de uma concessão, cada movimento seguinte tem que ser menor que o anterior. Cedeu 5% na primeira rodada? Na segunda, 2%. Na terceira, 1%. Depois, para. Essa sequência comunica que você está chegando no limite, e o comprador calibra a pressão.

O segundo é a pausa antes de ceder. Toda vez que o comprador pede uma concessão, antes de responder, você para. Alguns segundos de silêncio. Isso serve para três coisas: você ganha tempo para pensar, demonstra que a decisão tem peso e, muitas vezes, o próprio silêncio faz o comprador qualificar o pedido ou recuar um pouco. Em negociações por mensagem, esperar algumas horas antes de responder uma contraproposta de preço é uma técnica legítima, não falta de educação.

O que fazer na próxima negociação?

Antes de responder a qualquer pedido de concessão, faça três perguntas a si mesmo:

  1. O que posso pedir em troca antes de ceder?
  2. Se eu ceder agora, a próxima concessão vai ser menor que esta?
  3. Eu parei para pensar, ou fui no reflexo?

Se você responder essas três perguntas antes de abrir a boca, já vai negociar diferente. E vai perceber que o comprador, na maioria das vezes, aceita a troca. Ele só não sabia que podia ser pedido algo em troca, porque ninguém nunca pediu antes.

Perguntas frequentes

O que é concessão voluntária em uma negociação?

É quando o vendedor concede algo, quase sempre desconto, sem que o comprador tenha pedido, em geral para antecipar uma objeção que nem apareceu. Isso derruba a margem de graça e sinaliza que o preço tinha folga, o que leva o comprador a pressionar ainda mais.

Como responder quando o cliente diz que o preço está um pouco acima?

Não ofereça desconto na hora. Pergunte o que exatamente está acima e em relação a quê, e faça uma pausa antes de responder. Se for conceder, condicione: peça uma contrapartida, como prazo de contrato ou condição de pagamento. Preço vago não merece desconto automático.

O que é a sequência decrescente de concessões?

É dar cada concessão menor que a anterior, por exemplo 5%, depois 2%, depois 1%, e então parar. Esse padrão comunica ao comprador que você está chegando ao seu limite, o que faz ele calibrar a pressão em vez de continuar apertando esperando novos ganhos.

A contrapartida precisa ser sempre em dinheiro?

Não. Ela pode ser prazo de contrato mais longo, pagamento em menos parcelas, autorização para usar o nome da empresa como referência, indicação de clientes ou flexibilidade de cronograma. O importante é pedir algo de valor, porque o ato de pedir já mostra que a sua concessão tem peso.

Se você quer aplicar a concessão por contrapartida e dezenas de outras técnicas de negociação B2B na prática, é esse trabalho que faço nas palestras, nos treinamentos e na mentoria. Conheça em marciomiranda.com.br.

Este artigo nasceu da newsletter de Márcio Miranda no LinkedIn, publicada em 30/06/2026, e foi ampliado para o blog.


Sobre o autor: Márcio Miranda é especialista em negociação e vendas B2B, com mais de 30 anos formando negociadores e equipes comerciais. É autor de 5 livros, palestrante e apresentador do podcast Dicas de Negociação e Vendas com Márcio Miranda, com mais de 1.000 episódios. Conheça palestras, treinamentos e mentoria em marciomiranda.com.br.

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Márcio Miranda - especialista em vendas e negociação

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